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Artigos

A valorização dos talentos como uma das possibilidades de desenvolvimento social

Elizete Feliponi

“De fato, nenhuma nação séria se dá
ao luxo de desperdiçar talentos latentes.”
(Cláudio de Moura Castro)

O tema proposto para discussão é visto, por parte da população, como um disparate, quando colocado em paralelo com a situação social vigente no país. Valorizar, no âmbito escolar, alunos brilhantes com destaque cognitivo superior aos demais da classe, é uma ação impensada para o atual sistema, pois implica em orçamento público, planejamento institucional e uma prática avaliativa totalmente reconstruída para atender ao novo projeto educacional. Digo novo por assim realmente o ser e não é difícil chegar a esta conclusão.

O Brasil tem mais de cinco séculos de atraso, em relação às nações desenvolvidas, para colocar em ordem seu ensino público e, no caso, também o privado. Verificando a pedagogia Jesuística, passando pelo período colonial, época da ditadura e dias atuais, não consta na história brasileira um período de ouro para a educação. Consta, sim, tentativas de implantar medidas que realmente atendessem aos objetivos de aprendizagem e muitas vezes foram falhos. Isto porque ou buscaram atender aos interesses do poder ou porque não foram modelos educacionais coerentes com a realidade da nação. Sendo assim, a educação, como muitos outros setores do país, busca equilibrar – se sobre os trilhos para realmente poder pegar velocidade e chegar ao destino. O destino: ser a escola a própria vida, e não apenas preparação para esta quando chegar num futuro a ser definido.

Contudo, sabemos das dificuldades de nosso país. Nos universos escolares, todas as energias são gastas tentando recuperar o aluno com dificuldades de aprendizagem, com problemas familiares e sociais e o que vemos são mínimos resultados. Não que isso não deve ser feito, muito pelo contrário. Em muitas regiões do país, a escola, por mais que tente, não está conseguindo sozinha vencer as dificuldades propostas a ela diariamente: dar conta do social, do cognitivo e do emocional da criança. É o que se espera da instituição, mas esta não tem estrutura para tal funções, nem física e nem humana. Sendo assim, chegamos ao ponto, considerado por mim, como sendo o epicentro da questão “educação no Brasil”: o sistema político que o coordena.

A cada dia, novas propostas chegam no âmbito escolar. Todas de extrema valia, porém, falta esclarecimentos, seja esse por comodismo do educador, falta de verbas ou falta de qualificação profissional. Raramente você encontra planejamento para atender aquele aluno super dotado que, muitas vezes, acaba sendo também um aluno “problema” na sala, pois tudo lhe parece monótomo, cansativo. Faltam desafios nas atividades e por isso nada lhe atrai. Logo, o comportamento antes tido como de aluno questionador e pesquisador passa a ser de aluno que perturba e não pára quieto.

Pelo país afora, inúmeros são os projetos que visam atender os alunos com dificuldades, sejam elas quais forem. Mínimos são os projetos que visam atender e desenvolver o aluno com capacidades cognitivas elevadas. Durante muito tempo pregou –se a seguinte idéia nas universidades e escolas: “o aluno que não tem dificuldades segue sozinho, não precisa do professor ao lado. Temos que atender aquele que não consegue caminhar com as próprias pernas.” Confesso que isso sempre me intrigou. Acredito que são dois extremos e ambos merecem atenção por parte dos operadores das políticas educacionais.

Diariamente, saltam aos nossos olhos experiências bem sucedidas, nas quais o ensino fundamental foi priorizado pela administração pública e a nação inteira só ganhou com os investimentos na área. Coréia do Sul, China, e Estados Unidos são exemplos disso. Alemanha e Itália também, entre outros. Podemos relembrar o que aconteceu com a Rússia e os Estados Unidos entre a década de 50 e 60 do século passado. Enquanto estes gastavam forças com guerras, a Rússia investia em tecnologia, pesquisa, ciência e educação e grandes progressos na área começaram a aparecer. Os Estados Unidos, imediatamente, fizeram um garimpo pelo país, selecionando mentes brilhantes e investindo nestas como forma de se igualar aos russos. Resultado: a corrida espacial estava lançada e aí todos nós sabemos o resultado.

Para a administração pública brasileira, bom governo é aquele que cria e mantém programas de atendimento ao carente, seja integral ou parcial, em escolas ou projetos de prevenção e intervenção de problemas diversos. A visão que temos, tomando a realidade nua e crua, é assustadora, pois parece que quanto mais se faz, menos se progride. No país, a política, assim como a educação, são muito paternalistas. As duas usam o discurso da “exclusão social” e da “igualdade de oportunidades” para basear suas funções. O poder público peca em vários aspectos, entre eles o financeiro e o organizacional. Sendo assim, os nascidos em famílias privilegiadas terão as melhores escolas, os melhores professores, acesso a pesquisa e a tecnologia. Para os super dotados deste meio, a família dá o suporte necessário.

Por outro lado, o Estado consegue engessar ainda mais a vida dos talentos salpicados por este Brasil afora. Na maioria dos casos, a família não tem condições para fazer a orientação adequada e a escola, aquela que poderia salvar valorizando a capacidade do aluno, é controlada por toda uma estrutura política sistematizada, que atende aos interesses econômicos e políticos e, por último, a necessidade dos educandos. Para o poder público, é mais urgente mostrar para que veio nas camadas mais pobres. O grande perigo de tal administração é desenvolver a cultura do “ganha tudo”. Grande parte das verbas são gastas com “bolsa–escola”, “vale–leite”, “vale-gás”, “kit de materiais” e outros programas que, pelo que vimos, apenas dá. Não está ensinando a pescar e a população atendida também não demonstra interesse em aprender.

Pois bem. Um país com tantas dificuldades, de diversas naturezas, não pode se dar ao luxo de desperdiçar mentes brilhantes em escolas precárias, que não conseguem suprir a capacidade do educando, elevando–a ainda mais. A reportagem “Superdotados, mas carentes de atenção” (publicada na revista Veja, 16 de fevereiro de 2005) nos traz exemplos claros de mentes brilhantes sem espaço para se expandirem, pois freqüentam uma escola também carente de atenção, que aguarda uma administração pública coerente e comprometida com a realidade, e que realmente invista de forma competente os 25% da receita do município ou os 18% da União. Para tal conquista, muito caminho tem de ser trilhado por operadores de Políticas também comprometidos.

Uma nação que carece de pesquisa, emprego, tecnologia, ciência, intelectuais e de muitos profissionais capazes de criar soluções inteligentes para seus problemas de ordem urbana e rural, não pode se dar ao luxo de ser negligente na educação de pessoas que, na maioria das vezes, são capacitadas para tais anseios da sociedade contemporânea. Os bem estruturados financeiramente tem quem os socorra, mesmo se a escola é falha. No entanto, os mais carentes, correm o risco de serem “socorridos” pelo crime organizado, pois esse sabe muito bem como seduzir e acolher jovens com garra, vida e disposição.

Conforme a reportagem informa, o atendimento especial para estas crianças superdotadas está previsto em lei. É lei, mas não quer dizer que isso está acontecendo. É uma pena. Mais que isso. É um caso de desperdício de dinheiro e de profissional públicos. Ao deixar de criar programas que atendam estas crianças e jovens, o poder público deixa de criar mais empregos, que é o que o Brasil precisa urgentemente; deixa de investir na prevenção de problemas sociais; deixa de investir em ciência e tecnologia; não acredita que, selecionando indivíduos com grandes capacidades, estes podem aprimorar seus talentos, contribuindo para a solução de problemas; perde de investir em novos atletas que representem o Brasil em diferentes modalidades, não só no futebol (pois existem escolinhas de futebol que recrutam os melhores jogadores).

Não se trata aqui de um ensaio no qual acredita–se que “quem sabe deve seguir em frente e quem não sabe vá se arrastando até o final.” Muito pelo contrário. Todo educador leu, ouviu, acredita ou já estudou que a individualidade de cada um deve ser respeitada e valorizada no processo educativo, que cada um aprende de uma forma e a escola deve proporcionar diferentes formas, que a educação deve ser transformadora, educar para a liberdade e não para a submissão. Logo, o trabalho é complexo, bem sabemos. E aqui entra os administradores públicos também, não só docentes. A escola sozinha não consegue mudar o mundo, criar regras e colocá–las em vigência. Mas o poder público sintonizado com as necessidades sociais, coerente com seu orçamento e contratação de pessoal qualificado para tal, consegue criar e implantar programas valiosos de atendimento ao jovem, seja ele com defasagem de aprendizagem ou superdotado.

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