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Artigos

O currículo escolar e a sua função social com a terceira idade

Elizete Feliponi

Promover uma educação de qualidade em um país como o Brasil é o grande desafio dos educadores. Cito primeiramente estes, pois os governantes responsáveis pelas verbas a serem destinadas para esta finalidade colocam a escola – ainda - em segundo plano. Neste caso, o sistema educacional, que é debilitado, segue andando em solo arenoso, o qual não é seguro para construir um processo educacional sólido e progressivo. Vários são os pontos a serem analisados quando falamos em qualidade de educação: ética, valorização do docente, política educacional, PCNs, estrutura física, entre outros.

Viver em um país onde as mudanças sociais mais urgentes ocorrem de forma muito lenta é sempre preocupante para quem se sensibiliza com questões de ordem cultural, social, educacional e econômica. Percebemos no Brasil uma crescente formação de grupos governamentais e não – governamentais que buscam colaborar com essas mudanças e agilizar processos de transformação de um país carente em vários aspectos, mas ao mesmo tempo gigante em recursos e possibilidades de crescimento.

Este campo de mudanças é muito amplo. Nos detemos, então, a discorrer sobre a Educação. No âmbito escolar as transformações, sejam elas tecnológicas, culturais ou sociais, sempre chegam por último. Motivo? Falta de verbas. Claro que temos escolas privadas muito bem estruturadas e com inovações metodológicas. Mas estas atendem uma ínfima parcela da população. É fundamental também falar sobre uma parte das escolas públicas que, por sorte, são alvo de poucos prefeitos e governadores que buscam, na medida do possível, edificar um sistema educacional capaz de atender as necessidades educacionais necessárias para a formação global dos estudantes em todos os níveis escolares. E, por fim, destacar os professores e professoras realmente comprometidos com a sua profissão, que vão além de ensinar a ler e escrever, mas entendem a sala de aula como espaço de formação de Cidadãos.

No entanto, voltamos nossa atenção para o que as estatísticas nos mostram e, para sermos mais exatos, o que a realidade social nos mostra. Não podemos e não queremos esconder a estrutura educacional deficiente que temos. É certo e de conhecimento de todos. Queremos uma Escola que acompanhe o desenvolvimento, mesmo que pequeno, na área tecnológica, industrial e social. Como o foco deste trabalho é na área social, o qual está voltado para o Estatuto de Idoso, buscamos verificar a contribuição que a escola, enquanto instituição, tem a dar para a efetivação destes interesses.

Paulo Pain, hoje vice-presidente do senado Federal, em 1997 deputado, foi o autor do projeto do Estatuto do Idoso “...que complementa a Política Nacional do Idoso estabelecida pela lei 8.842, de 1994.” Esta lei tem como objetivo “...assegurar os direitos sociais do idoso, criando condições para promover sua autonomia, integração e participação efetiva na sociedade.” Esta “integração” e “participação” sociais não dependem exclusivamente dos idosos, mas principalmente da sociedade em geral, com todas as suas organizações e instituições. E a Escola faz parte deste contingente de instituições formadoras de sujeitos, os quais constituem o país. Portanto, este segmento social tem como dever trabalhar todos os aspectos fundamentais para a edificação de uma sociedade sadia e comprometida com seu passado, presente e futuro. Faz parte deste comprometimento a preocupação com a formação escolar de nossas crianças e adolescentes, pois são estes que irão nos substituir, nos próximos anos, no mercado de trabalho, na gestão das políticas públicas, na utilização e preservação dos recursos naturais, enfim, dizemos que a Escola deve preparar para a vida. Mas não só isso. Deve preparar para a vida futura e para os dias atuais também, incluindo, nesta rede de informações, o respeito para com o outro, principalmente com as pessoas da “melhor da idade”, como os idosos também são chamados.

No momento, nossa maior preocupação não é encontrar o termo mais correto para no referirmos às pessoas mais velhas, mas procurar ampliar a contribuição que a Escola deve oportunizar para que nossas crianças sejam sensibilizadas quanto ao respeito que é preciso ter com o outro, conscientizando–as para terem uma vida mais sadia, ativa e harmoniosa com todo o meio em que está inserida. Assim, termos como “idosos, pessoas mais velhas, terceira idade ou melhor idade” passarão a ser usados com mais respeito e é isso que mais importa.

A expressão “contribuição que a Escola deve oportunizar” é muito abrangente. Ela envolve dimensões além do aspecto físico e financeiro que a escola engloba, mas principalmente questões de planejamento curricular. Se o planejamento permeia as relações de ensino e aprendizagem, o planejamento curricular delineia conteúdos e questões a serem trabalhados, seja através do currículo explícito ou do currículo oculto. Fazendo uma breve retrospectiva da história do currículo no Brasil, podemos perceber porque este é ainda tão tradicional, priorizando o ensino da Matemática e da Gramática. O Brasil foi colonizado pelos portugueses e, conseqüentemente, o sistema cultural foi trazido de lá para cá. Os colonizadores não tinham a menor intenção de educar para o pensar, mas para dominar negros e índios. Assim, os Jesuítas comandaram a Educação no Brasil por mais de 200 anos. Mesmo depois da expulsão dos Jesuítas do Brasil, o conhecimento continuou a ser trabalhado de forma fragmentada. Durante a ditadura militar, as disciplinas reflexivas foram excluídas do currículo e na década de 70 a 80 foi privilegiada a formação tecnicista. Com os PCNs, estabeleceu –se que o Ensino Fundamental e Médio deve ter uma base nacional de currículos a serem trabalhados, mas ainda as ciências exatas estão acima das disciplinas reflexivas. Estas, que de forma mais ampla, estimulam a criticidade e o pensar, são trabalhadas em escala menor ou simplesmente não existem no currículo, como Sociologia, Filosofia e História.

No entanto, sabemos da capacidade das pessoas que ainda escolhem a profissão de professor em um país com tantas divergências na área da Educação e por isso o Brasil continua a acreditar que esta é uma parte fundamental para a transformação do país, mesmo sendo gradativa. Sabemos que o sistema possui a grade curricular e isto não é de todo o mal, pois existem saberes que devem ser difundidos, não em forma de cadeias, um após o outro, mas em redes de conhecimento, ou seja, todas as áreas dos saberes estão interligadas. Neste caso, tanto a grade curricular – seguida pelas escolas - como o currículo oculto, estarão permitindo o acesso de nossas crianças aos saberes necessários para a vida, entre eles, sobre a vida de nossos idosos, pois “O Brasil está envelhecendo a passos largos. Dados do IBGE (...) apontam que, entre 1991 e 2000 o contingente de pessoas com 60 anos ou mais subiu de 10,7 milhões para 14,5 milhões. Nos próximos 20 anos, os idosos brasileiros poderão ultrapassar os 30 milhões de pessoa e deverão representar quase 13% da população. O País, no entanto, não está se preparando para o próprio envelhecimento.

A velhice é um fato real e todos os seres humanos terão este momento, a não ser, é claro, que morramos antes. Esta é a idéia expressa pela atriz Tonia Carrero, quando disse certa vez que ela não gostava de envelhecer, mas a outra alternativa era morrer. Sendo este fato tão real e presente, buscamos, então, envelhecer com saúde e dignidade. Para isso, a Educação escolar, seja através do currículo pré – estabelecido ou do currículo oculto, tem papel fundamental. Acreditamos que todas as áreas do conhecimento tem em seu conteúdo questões que podem ser abordadas sobre a terceira idade. Um exemplo disso deu – se no ano de 2003 quando o tema da Campanha da Fraternidade foi sobre os Idosos. Inúmeras escolas, públicas e privadas, principalmente as Católicas, trouxeram à luz dos estudos o tema da Campanha, bem como os meios de comunicação, que o trabalharam em diversas ocasiões, principalmente em novelas.

No entanto, este é um tema que não pode ter caráter de celebridade instantânea, que vem e passa, mas deve ser contínuo, trabalhado, modificado, aperfeiçoado. Sabemos da rigidez com a qual nosso currículo escolar é tratado, mas nestes casos, nos quais as questões são de ordem pública e de extrema necessidade de discussão, a escola tem o dever de trabalhar em sala de aula, colocando os educandos a par do que está acontecendo.

A lei nº 10.741 de 2003 dispõe sobre o Estatuto e deixa claro que a escola tem a necessidade e o dever de trabalhar sobre o idoso. Siqueira, em seu livro já citado neste artigo, traz de forma clara o papel referente a escola, bem como seu objetivo. “Por fim, conforme o art. 22, serão incluídos conteúdos informativos relativos ao processo de envelhecimento, respeito e valorização do idoso, de modo a eliminar o preconceito e a proporcionar às gerações futuras o conhecimento sobre a matéria. Essa determinação completa a proposta educacional prevista no Estatuto: primeiro, atende-se aos idosos, depois, expõe-se o que é o envelhecimento às gerações futuras, para que tenham uma compreensão melhor a seu respeito, livre de preconceitos, com a conseqüente e devida valorização.” Acreditamos que essa valorização, em se tratando do universo escola, dar-se-á, claro, através dos conteúdos referentes abordados e muito mais através das ações e idéias de professores, diretores, orientadores, serventes, ou seja, de todos os profissionais da escola. Concluindo, através do currículo oculto, aquele que não está planejado, escrito, discutido, mas é pensado e valorizado, e faz parte da rotina de todos os componentes da escola. Com isso, os alunos também incorporam essa atitude de respeito e valorização aos idosos, pois aprendem através de exemplos.

Esse conjunto de conquistas para com a terceira idade tende a ser gradativa e é fundamental para o nosso momento histórico. Por isso, enquanto o processo de ensino e aprendizagem trabalha com os alunos aspectos referentes a essa fase da vida, a escola busca o maior número de informações sobre o assunto. Nada mais justo, então, que os idosos participem desse movimento, não como presença distante, mas como sujeitos constituintes desse processo. O S 2º do art. 21 diz que “Os idosos participarão das comemorações de caráter cívico ou cultural, para transmissão de conhecimentos e vivências às demais gerações, no sentido da preservação da memória e da identidade culturais.” Siqueira nos dá uma idéia real da importância de conviver mais de perto com nossos idosos e usufruir da riqueza de experiências que só eles possuem. “É emocionante ver, ano a ano, nas paradas militares, os heróicos pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (FEB), que nos campos da Itália lutaram para derrotar o nazismo, na Segunda Guerra Mundial, marchando vigorosos. Quantos jovens saberão o significado daqueles soldados para a história? Isso, no aspecto cívico. No âmbito cultural há a necessidade de acontecer com mais freqüência também. Seja para que o País não perca sua própria identidade, seja para dar o devido valor à rica experiência dos idosos.”

Experiências de integração com os idosos podem acontecer em todos os níveis da Educação em todas as disciplinas e com certeza há muitos trabalhos dessa natureza realizados no nosso país como, por exemplo, entrevistar as pessoas mais velhas da comunidade, fazendo um levantamento da história da cidade. Há, também, escolas nas quais os alunos, desde a Educação Infantil, convidam os avós para irem nas suas escolas participarem do programa “Saúde da Família”, onde são realizados exercícios físicos e diversas atividades de lazer.

Há, também, uma nova profissão surgindo, que vem de encontro às necessidades sociais. São as “Cuidadoras de Idosos”. É um grupo que teve origem em uma favela do Rio de Janeiro. Alguns motivos, como o desemprego e a demanda por cuidados da parte dos idosos, permitiu – e permite – o surgimento desses profissionais. Mais uma vez, as mudanças sociais, de várias naturezas, trazem novas possibilidades de vida, trabalho e relações entre as pessoas.

Assim sendo, é visível a necessidade, com uma certa urgência, do currículo escolar ser revisitado constantemente com o intuito de analisar se as questões sociais, das mais diversas, estão sendo atendidas, contempladas, observadas, discutidas, refletidas. Este é o papel da escola; este é o papel de seus docentes, gestores e secretarias; este é o papel da sociedade como um todo: promover o encontro/ respeito/ reflexão de culturas, conhecimentos e valores dos mais diversos entre seus alunos e o ambiente.

Referência Bibliográfica

SIQUEIRA, Luiz Eduardo Alves. Estatuto do Idoso de A a Z. Aparecida, SP: Idéias e Letras, 2004.

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