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Produção escrita escolar: qual o espaço do aluno?Cristiana Poltronieri Toda educação comprometida com o exercício da cidadania precisa criar condições para que o aluno possa desenvolver sua competência discursiva, utilizando a língua de modo variado para que possa produzir diferentes efeitos de sentido e adequar o texto a diferentes situações de interlocuções sejam elas orais ou escritas.
O ato de escrever não é um processo rápido, vago, nem linear. Para alguns alunos pode fluir com mais facilidade, para outros, servir como um castigo a ser obedecido durante as aulas de português. É lamentável quando se percebe a consciência fixa em muitos alunos de que escrever é ruim. Culpa deles? Não. Certamente de um processo demorado de formação docente que, preocupados com o cumprimento da grade curricular, não prepararam os professores para enfrentar as dificuldades dos alunos em sala de aula.
É sabido que, tanto para a escrita como para a leitura, a escola usa modelos para ensinar. Vinculam-se com freqüência exercícios redacionais aos de leitura, na suposição de que deve começar pela imitação ou reprodução, para que o aluno aprenda a escrever e, é nesse aspecto que ainda está enraizado o processo de escrita em grande parte das nossas escolas: levar os estudantes a escrever exatamente como o professor quis ensinar.
Hoje, as teorias sócio-interacionistas reconhecem a existência de um sujeito planejador/organizador que, em sua inter-relação com outros sujeitos, vai construir um texto, sob a influência de uma série de fatores.
Isso significa que a construção do texto exige a realização de uma série de atividades cognitivo-discursivas que vão dotá-lo de certos elementos, propriedades ou marcas, os quais, em seu inter-relacionamento, serão responsáveis pela produção de sentidos.
Dessa forma, pode-se remeter aqui a teoria bakhtiniana dos gêneros do discurso, para a qual, cada campo da atividade humana cria e tem os seus gêneros do discurso para as interações sociais.
Nessa perspectiva, não é possível tomar como unidades básicas do processo de ensino da produção textual as que decorrem de uma análise de palavras, sintagmas e frases isoladas, que descontextualizados, são tomados apenas como pretexto para o ensino da gramática enquanto nomenclatura, e pouco têm a ver com a competência discursiva do aluno. Vale lembrar aqui que cabe à escola garantir aos alunos o domínio das práticas de linguagem das diversas esferas sociais, cabendo igualmente à escola, escolher quais as funções que pretende ensinar.
Quantos alunos autores estamos podando sem perceber em nossas salas de aula? Dificilmente socializamos com o grupo o que o aluno escreveu. Os alunos não têm o que, por que e para quem dizer/escrever algo. Por meio da produção textual, o professor poderia ter o privilégio de conhecer mais sobre a imaginação desse sujeito, seus objetivos, seus valores, experiências, repertórios, além do desempenho lingüístico, que é o objeto primeiro da escola.
A partir do momento em que o aluno é capaz de manifestar sua autoria, ele assume diante da instituição escola e fora dela( nas outras instâncias institucionais) seu papel social na sua relação com a linguagem: o de constituir-se e mostrar-se autor.
Portanto, para que o aluno tenha espaço para desenvolver sua autoria, ele precisa, antes de tudo, que a escola forneça espaço para isto, pois é da escola, como diz Orlandi (1996) esta função. Dessa maneira, o aluno precisa estar mais envolvido no processo de autoria: falando, dizendo e enunciando (declarando) o que quer transmitir, situação esta, que pouco acontece no cenário atual das salas de aula.
Assim sendo, remeto-me novamente a Coracini (1999) ao salientar que a escola tornou-se uma mera reprodutora de redações, e que ela, a escola, apaga o processo de emergência da autoria, impedindo que o aluno experiencie o estranho, o diferente, o outro.
O aluno-autor precisa estar à vontade com seu texto ou em situações que o auxiliem a escrever, não para si próprio, mas para alguém. É preciso que haja dialogismo entre interlocutores, pois os interlocutores são pontos-chave para a escrita, mesmo que esses sejam uma lista de referências bibliográficas ou amigos da sala de aula.
Está na hora de professores, escolas e “sistemas” abrirem mão da reprodução para a produção de sentidos, e assim, abrir espaço para a alteridade, enfim, para a concretização e prática da autoria, e assim, formarmos bons escritores nas salas de aula.
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