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Artigos

O indivíduo e a coletividade

Nilmara Bompani Natali

Os conhecimentos acumulados pela humanidade, ao longo de sua evolução, foram construídos e produzidos com os objetivos, direções e estilos diferenciados. Assim, foram se definindo modalidades culturais distintas, que reuniram grupos de indivíduos, que compartilhavam interesses comuns, costumes e objetivos semelhantes, estruturando as diferentes sociedades.

Partindo do princípio de que o conhecimento é desenvolvido pela espécie humana ao longo de sua história, para explicar, entender, manejar e conviver com a realidade contextualizada culturalmente e que a apropriação desse conhecimento se dá pela necessidade dos grupos culturais de sobreviver no seu ambiente é que grandes descobertas em Ciência e Tecnologia são anunciadas a cada dia.

Em cem anos de história a Ciência desenvolveu-se mais que em todo o resto da história da humanidade. Este é realmente um mundo de grandes e rápidas transformações e nele a Ciência aparece como um dos mais fascinantes diálogos que a humanidade já travou. Mas, com todas essas novidades a humanidade está conquistando uma existência mais digna? Está mais feliz?

As modalidades de transformação e de desenvolvimento que a humanidade tem adotado ao longo da história são depredadoras, de cunho fundamentalmente exploradoras e cruéis , na exploração da natureza e na exploração do homem pelo homem. Se pretendemos construir um mundo para as gerações futuras, devemos mudar radicalmente nossas ações. Mas será possível alguém que vive e que foi “educado” para este mundo atual, efetivamente, tentar melhorar o mundo para gerações que não chegará a conhecer, que estão muito longe, se não é capaz de ser solidário com as gerações presentes?

É muito difícil acreditar que possamos ser solidários com o futuro sem começar a construir esse futuro no presente. Os processos tecnológicos que constróem o progresso presente conduzem a processos de contaminação e poluição, onde os recursos naturais estão se tornando escassos. A utilização de descartáveis , de difícil degradação está se tornando cada vez maior.

O modelo de sociedade construído com a industrialização crescente e a conseqüente transformação do mundo em um grande centro de produção, distribuição e consumo, está trazendo rapidamente conseqüências indesejáveis e que se agravam com muita rapidez.

Os problemas não se restringem apenas à proteção da vida, mas também à qualidade de vida. A injustiça social, que faz com que parte da população brasileira tenha baixa qualidade de vida, está relacionada diretamente ao modelo de desenvolvimento.

É urgente a necessidade da mudança de mentalidade, para transformar a consciência das pessoas em direção a construção de um mundo mais justo, digno e ecologicamente equilibrado. Essas mudanças são possíveis através da escola que precisa muito mais cultivar comportamentos do que transmitir informações. Isto é, a escola deve oferecer condições para que o aluno compreenda os fatos naturais e humanos, de modo crítico e que permita cultivar e criar atitudes que possibilitem viver uma relação construtiva consigo mesmo e com o seu meio, colaborando para que a sociedade seja sustentável e socialmente justa.

Para que isso ocorra, é pouco informar e dar conceitos.Com essa nova forma de mercado tão presente em nosso dia-a-dia, somente o que tem valor é o que vai ao mercado. A linguagem já não se faz mais presente, o pensamento crítico omite-se e só o que vale é a informação passada pelos meios de comunicação.

Cabe lembrar aqui a diferença entre conhecimento e informação. A mídia que hoje faz-se presente com muita facilidade tem o objetivo de informar os indivíduos, que é bem diferente de conhecimento. Conhecimento se constrói através das informações que recebemos. É avaliando, refletindo, questionando, argumentando e interagindo.

É necessário trabalhar com atitudes, com formação de valores, com o ensino e aprendizagem de habilidades e procedimentos. É um grande desafio. A escola não está sozinha nesta tarefa, os padrões de comportamento da família, as informações e as opiniões veiculadas pelos meios de comunicação de massa exercem especial influência sobre as crianças e por extensão na sociedade como um todo.

Estamos vivendo numa era de mundialização, a qual é dada através da competitividade, gerando o individualismo cada vez mais forte. Essa individualização gera a banalização do sujeito, ou seja a troca. Ele perde quase que totalmente seu valor, seu potencial, pois visa-se o lucro.

O jornalista Joelmir Beeting, em um dos seus artigos faz uma crônica dizendo que daqui a alguns anos as empresas estarão contratando um homem e um cachorro. O homem servirá para manobrar a máquina e o cachorro para cuidar do homem, para verificar se ele cumpre corretamente seu trabalho.

Com esta fala, o jornalista demonstra sua preocupação com o valor do ser humano, onde ele está perdendo espaço e tudo gira em torno de um só ideal, anulando-se as culturas que foram construídas ao longo dos anos.

A cultura moderno-contemporânea está fortemente centrada no indivíduo e em sua auto-realização. Discutem-se os deveres, mas, sobretudo, os direitos. O individual tornou-se mais importante que o social. Valores objetivos e referenciais tradicionais, como religião família, patriotismo, estão em profunda crise.

Estamos passando por um processo de aceleração da história e a própria cultura entendida aqui como o modo de pensar de agir e de ser das pessoas, fica profundamente abalada.

Creio que a mundialização pode ser um grande fator de paz e de desenvolvimento, se processada com base na solidariedade, mas também pode conduzir a mais brutal exclusão e marginalização, se norteada simplesmente pela competitividade.

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