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Liberdade de expressão ou libertar da opressão?Nilmara Bompani Natali Não é no silêncio que os homens se fazem,
mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão
Paulo Freire
A necessidade constante de reflexão e o desejo de multiplicação e inovação do conhecimento precisam ser considerados no rol das inter-relações formadas durante a vida, inovando-as e adaptando-se ao meio.
Em meio a todas essas mudanças, percebemos que, ainda hoje, há casos onde a prática pedagógica tem-se constituído numa mera transmissão de conceitos, sem justificativa e sem conexão com o mundo social, ou seja, uma “rotina fracassada”, mostrando um quadro “(...) onde os estudantes estão em silêncio, ou onde falam e escrevem naquela linguagem falsa e defensiva que inventam para tratar com os professores”.
Desta forma, temos como desafio, tornar o método em prática de aprendizagem algo significativo para o educando e que o faça construir o conhecimento.
É fundamental ver o aluno como um sujeito, entendido aqui como um ser que está em formação constante, que faz parte de um grupo social, cultural, político e econômico, que sofre influência do meio no qual está inserido e que se constitui a partir do outro.
Creio que muitos educadores têm esse objetivo trancado dentro de si, mas a resistência e a falta de conhecimento teórico os impedem, quando deveriam saber que a metodologia utilizada com os educandos é uma parcela de responsabilidade na formação crítica e criativa, tanto do educador, como do educando. É necessário que o educador se abra, que seja autor do seu trabalho, permita que o aluno se aproxime, seja “(...) um aprendiz ativo e cético na sala de aula, que convida os estudantes a serem curiosos e críticos... e criativos”.
Atualmente, o grande desafio das escolas e professores é fazer com que o ensino acompanhe a linguagem dos novos tempos. O mundo do aluno é moderno, é cheio de tecnologias. Os educadores devem falar a linguagem contemporânea, estar por dentro de diversos assuntos para dinamizar as aulas e principalmente saber ouvir os alunos. Para isso, é necessário que assumam o papel de grandes incentivadores de busca do conhecimento, diferenciando-se das redes tecnológicas tão acessíveis aos alunos. E qual é nossa realidade? Uma educação pautada em repetição, em discursos que sejam padronizados e prontos. Estamos formando autores ou repetidores?
O professor deve levar o aluno a perceber o mundo que o cerca, manipular os objetos, construir o conhecimento e mostrar-lhe uma relação íntima entre a escola e o mundo, percebendo como uma totalidade indissociada.
Nesta relação, o diferencial é a tecnologia empregada ao alcance dos alunos e a possibilidade de o professor atrair o aluno, convidando-o a fazer parte do processo, dando sua contribuição no processo ensino-aprendizagem e abandonando o paradigma tão constringente no qual o mestre ocupa o centro de todo o processo, comanda todas as ações da sala de aula e sua postura está ligada a transmissão de conteúdos e a decorar regras. Nesse contexto o aluno tem o dever de “aprender” sem qualquer questionamento ação ou discussão. No entanto, “O que fazemos em classe não é um momento isolado, separado do mundo real. Está totalmente vinculado ao mundo real, e este mundo real é que constitui o poder e os limites de qualquer curso crítico”.
Professores conscientes de sua prática sabem que depositar informações gratuitas não produzem bons resultados, aliás, não produzem, somente reproduzem... Reprodução no mundo atual não tem valor algum porque a aprendizagem se realiza através da relação do sujeito com o meio. A repetição nada tem a ver com a aprendizagem. Segundo LIMA “A aprendizagem é um esforço em que o sujeito tem que se transformar para conseguir assimilar o objeto que necessita”.
É preciso algo novo, diferente, que motive os alunos. Que eles se percebam enquanto sujeitos, que façam diferença, ou seja, uma atitude original e não mecânica e reprodutora. FREIRE & SHOR confirmam a colocação acima, quando escrevem que “Os estudantes são excluídos da busca da atividade do rigor. As respostas lhes são dadas para que memorizem. O conhecimento lhes é dado como um cadáver de informação – um corpo morto de conhecimento e não uma conexão viva com a realidade deles”. Assim, considero que bom educador é um administrador de curiosidades, disposto a criar um aprendiz permanente.
Diante da abundância de dados acessíveis via bancos eletrônicos, o bom professor é aquele que guia as curiosidades, transformando-se num facilitador, auxiliando a reflexão para que o aluno não se perca na floresta de informações. Ele deixa de ser o único provedor de informação, auxiliado por alguns livros, para ser o administrador da curiosidade da criança ou do jovem.
Uma forma de intervir é o próprio professor reconhecer que aquilo que faz em direção à mudança pode encorajá-lo ainda mais. Sentindo que é possível mudar, melhor, que ele pode mudar, lembrar que cada indivíduo é único e que tem uma forma própria de assimilação, uma forma de interpretação, enfim, uma identidade. Identidade essa, que o povo brasileiro anula por muitas vezes.
O povo brasileiro infelizmente padece do mal do mutismo, que parece ter sido adquirido por sua longa inexperiência democrática. A nossa história não é uma história na qual o povo desempenhou papel decisivo nos rumos de seu próprio destino. Ao contrário, é uma história onde o povo esteve sempre fora dos processos decisórios. Por isso, Paulo Freire enfatiza a importância da verbalização, da manifestação, da discussão e da reflexão, mas juntamente com os alunos e não sendo somente um plano de discurso, enquanto que, em sua ação pedagógica, tomam a palavra os adultos e pedem às crianças que façam silêncio.
Sabemos que é difícil conseguir, pois em nosso país o diálogo entre professores e alunos está travado por gerações. FREIRE & SHOR colocam que “(...) dialogar não é só dizer ‘Bom dia, como vai?’ O diálogo pertence à natureza do ser humano, enquanto ser de comunicação. O diálogo sela o ato de aprender, que nunca é individual”.
O que queremos com isso é alertar os educadores para que reflitam sobre a sua prática pedagógica. Em qualquer trabalho de educação, junto a qualquer classe social, o fundamental é priorizar a manifestação e a expressão, ou seja, deixar que o educando fale, que coloque suas idéias que seja capaz de descrever e analisar sua realidade. Que seja um sujeito-autor de sua formação.
Nesta visão, o diálogo quebra paradigmas, propicia a melhor relação entre professor-aluno e permite o auto-conhecimento de ambas as partes.
Partindo da visão de que temos que nos conhecer para podermos compreender o que se passa com as outras pessoas é ponto fundamental na sociedade atual. SALTINI coloca que “Quem não se percebe não percebe o outro e quem percebe o outro passa a se perceber sincronicamente”.8
Nesta troca, o conhecimento acontecerá de forma natural, exigindo a passagem da subjetividade para a intersubjetividade, sendo que neste espaço aberto, haverá conseqüentemente a sede da busca, do aprender, visando dar liberdade, dar voz aos alunos. A liberdade não é simples nem caótica, é um plano superior e pensado, por isso não deve ser confundida com caos.
Esse plano abrange desde as nossas necessidades até às do outro ou seja, respeitando e respeitando-se. Esse plano para uma educação mais consciente e com mais participação e envolvimento do aluno, visa ir em busca de perceber a totalidade, inclusive a de nós mesmos. É energizar as raízes de cada um, fortalecendo-as ainda mais através do diálogo, ato este, que pode superar dúvidas, traumas, angústias e apostar em um sonho possível para todos, transformando assim, um meio para que o homem possa se construir como pessoa em termos de sendo e não tendo .
Esta não é uma nova maneira de educar, mas sim uma transformação quase completa sobre o conceito e a significação de educação da e para a vida. Uma educação vinculada a realidade, ligada ao ser em formação.
Assim, o ser humano será perfeitamente capaz de criar relações construindo aquilo que jamais fora feito antes, nem pela tecnologia. Esta educação considera o sujeito como sendo mais importante que o objeto, pois o homem estabelece uma relação com os outros, atua e modifica.
Desta forma, conhecer-se e conhecer o outro, implica em crescer juntos, em trocar idéias, em comunicação, em diálogo que gera uma educação de ponta dando liberdade de expressão à nossa prática e libertando os alunos e até nós, educadores da opressão da qual estamos enraizados, chamada pedagogia tradicional, na qual o aluno só aprende por repetição e memorização.
Acredito que, com essa concepção de ensino de língua, estaremos contribuindo para que a língua materna se transforme em instrumento indispensável à construção de uma cidadania consciente e mais democrática, que permite ao homem que a usa atuar sobre o mundo e modificá-lo.
REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FREIRE, Paulo & SHOR, Ira. Medo e ousadia – o cotidiano do professor. 4ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.
LIMA, Adriana Flávia Santos de Oliveira. Pré escola e alfabetização – uma proposta baseada em Paulo Freire e Jean Piaget. 9ª ed. Petrópolis: Vozes, 1996.
SALTINI, Claudio J.P. Afetividade e inteligência. Rio de Janeiro: DP&A,1997.
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