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Formação do Professor e a “Escola da Vida”

Lucas Ribeiro da Mota

 

“A educação de amanhã se fará fora da escola [...].

A vida, que já é por si só uma grande escola,

se transformará em escola da vida

desde o berço.”

 

Pierre Weil

 

 

Resumo: Para MORIN (2000), o surgimento da humanidade, bem como o seu processo de evolução, deu-se por erros e ilusões, por casos e acasos, por idéias e teorias, por desorganização e organização, por guerra e paz, por problemas e soluções, ou seja, a humanidade se dá pela realidade e pela utopia, tentando compreender o incompreensível: o futuro. “O futuro chama-se incerteza” (MORIN, 2000, p. 81), e essa incerteza chama-se HUMANIDADE.

É por essa humanidade que a cultura e o conhecimento são construídos e alterados constantemente, é claro que “o conhecimento é [...] o risco de ilusão e de erro”. (MORIN, 2000, p. 86), mas acima de tudo a educação navega e tenta sobreviver a um maremoto de conflitos. Contudo, o que se vê é apenas o epicentro no maremoto, a verdadeira causa para que isso aconteça é a falta de coragem dos professores em aceitar a condição existente e fazer melhorar isso, pois é só na aceitação que se pode trazer a utopia para a realidade.

Portanto, ao se tentar trazer a utopia para a realidade, é necessário que a educação (elo importante entre utopia e realidade) seja mais do que conteúdos decorados, tem que se “educar para a compreensão humana” (MORIN, 2000, p. 93), pois é somando conteúdos, as relações sociais e a realidade que teremos uma educação voltada para a modernidade, ou seja, a educação para o século XXI, a “Escola da Vida”.

 

Palavras-chave: formação do professor, escola da vida, educação

 

 

1.     Introdução

 

Para falar da educação do século XXI é necessário fazer uma breve recordação de sua evolução. Por volta de 4 milhões de anos a.C. surge os primeiro hominídeo, os Australopithecus, que para sobreviverem comiam vegetais e alguns animais. Pode-se dizer que esse foi o primeiro aprendizado de um hominídeo, porém, como tudo evolui, os Australopithecus se extinguiram há cerca de 1 milhão de anos, e surge a espécie Homo, que aprende a construir instrumentos de pedra e madeira, a caçar, a utilizar o fogo. Entre 135 mil e 34 mil anos atrás, o Homo neanderthalensis, começa a viver em sociedade, ter uma linguagem falada, e por fim surge o Homo sapiens sapiens (classe que pertencem todos os homens) que além de caçar, utiliza-se da agricultura, da criação de animais etc., além de começar a desenvolver o saber reflexivo, que se mantém até hoje. (COTRIM, 2005)

Saber a pré-história é saber como era a educação da época, que foi a troca de informações, que se repete até hoje, porém mais complexa. Essa complexidade vem de ideais renascentistas, iluministas, reformistas e capitalistas, bem como da própria evolução sociocultural da humanidade, que somados resultam na sociedade da atualidade, que também influência na educação, que já foi reformista, construtivista, conteúdista, que hoje se encontra no patamar de crítica/reflexiva.

“Ensinar de modo certo, para obter resultados; [...] ensinar de modo fácil [...]; [...] ensinar de modo sólido [...]” (COMENUS, 1997, p.13), é o resultado, se assim pode ser chamado, da evolução da educação, pois ensinar é que professores, família e sociedade fazem a todo momento através de conteúdos específicos (disciplinas escolares) e princípios morais e éticos. Resumindo, ensinar é o que vida sempre fez e continuará fazendo.

Esse trabalho vem discutir isso. Por mais complexa que seja a sociedade, esta sempre participou da formação educativa de jovens, pois a arte de ensinar destina-se em formar o homem, que se não tem escola a vida o ensina, e se tem escola, esta deve complementar a vida. Os guias para essa que haja o complemento da vida são os professores, que mostram um mundo diferente, que educam para a vida, ou melhor, que deveriam mostrar e educar, pois atualmente isso não acontece devido a falta de incentivo por parte do governo e por motivação própria.

Sendo assim, uma educação do século XXI deve estar fundamentada em pontos positivos do passado, em uma escola em que os professores promovam a inclusão das relações sociais da comunidade em sala de aula e que sempre possam estar se atualizando, se modernizando. Portanto, é nesse sentido que esse trabalho visa se apoiar.

 

2.     A formação do professor na educação do século XXI: solução?

Muito se pensa sobre os profissionais da educação, principalmente os professores, porque atualmente, as polêmicas sobre salários e sobre condições de trabalho estão cada vez mais expostos. Greves, paralisações, reivindicações, são essas palavras que surgem na mente da população quando se fala em “professores”. A atual realidade beira ao caos, que, provavelmente, terá um fim não muito bom para o país, pois é na educação que forma-se cidadãos, e quem é um dos responsáveis por essa formação: os professores.

Entre as várias reclamações dos professores está a falta de incentivo do governo perante a “reciclagem” dos profissionais e sobre o salário – reflexo do capitalismo. Portanto, observando as notícias da mídia, o processo educacional, dentro do sistema capitalista, se dá da seguinte maneira: “[...] cada escola é uma organização única e cada uma deve aprender a aprender segundo seus próprios recursos e horizontes” (GOERGEN, 2005, p. 76) fazendo com que cada escola tenha suas características, ou seja, seu “rosto”. No entanto a valorização das escolas fará com que uma seja melhor do que a outra, o que fará com que a escola torne-se “uma instituição e a educação um produto de mercado” (GOERGEN, 2005, p. 76), ou seja, a escola e, porque não, a educação perde o “rosto” humanizado, e fica sujeita a todas as leis do mercado, tornando-se suscetível as suas exigências. (GOERGEN, 2005)

Mas quem é o culpado disso? Ou melhor, existe um culpado? Ou culpados? Provavelmente sim! Professores e governo são os culpados. Os professores por ter colocado o dinheiro a frente da vocação e o governo por fazer da escola e da educação uma mercadoria do capitalismo e da política.

Para os professores, o bom desempenho em sala de aula tem a ver com a “modernização” das informações e do material didático. Mas será que esses professores não vêem TV? Não lêem jornal? Porque não é preciso o governo pagar para a atualização dos professores[1]. A atualização é hoje, e agora. Esse trabalho é uma atualização e uma crítica do que acontece. E se a situação não melhorar, “no futuro, a escola pode desaparecer e o ensino pode ser mencionado como uma daquelas profissões do passado, tão comoventes por terem caído em desuso.” (PERRENOUD, 2002, p.11)

Vale salientar, que não basta o governo pagar pela atualização do professor, este também tem que querer. O querer mudar a situação já é o suficiente. Para fazer uma caminhada, o primeiro passo tem que ser dado. E o primeiro passo para o professor é deixar de lado a idéia de que o governo tem que fazer tudo.

“Parece-me que os formadores e os responsáveis pela formação dos professores devem trabalhar em dois planos:

·         De forma conjunta, na escala de um projeto de estabelecimento, para construir uma visão comum e sintética da formação dos professores, de seus objetivos e procedimentos;

·         Em grupos de trabalho mais restritos para desenvolver dispositivos específicos coerentes com o plano conjunto.” (PERRENOUD, 2002, p. 30 – 31)

 

De uma forma mais simples, os profissionais da educação não precisam apenas de formação teórica, pois em sua formação a teoria sempre esteve presente e também existes os livros didáticos como guias, mas sim de formação sociopedagógica (se é que existe isso), ou seja, uma formação de como trazer o lado social para a sala de aula (pedagogia). Seria uma solução para melhorar a educação? Sim! É fácil fazer acontecer? Não! O que falta? Coragem!

A aula de um professor “ideal” baseia-se na pedagogia crítica/reflexiva[2], onde o conteúdo dado tenha uma contextualização com a realidade: é a relação entre o conteúdo científico e o conteúdo social, ou em outras palavras, é a relação entre o que o aluno aprende em sala de aula e a sua vida. (PERRENOUD, 2002).

O processo educacional e as relações sociais existentes em uma comunidade estão tão ligadas como “unha e carne”, mas muitas das vezes parece mais “água e óleo”. As transformações sociais devem fazer parte do cotidiano da sala de aula, no entanto, o despreparo dos professores e a não adaptação dos conteúdos para com a situação da escola faz com que muitas pessoas desistam de ir à escola. Para um estudante do ensino fundamental o mundo é desconhecido, e é função do professor promover o descobrimento. Já no ensino médio, os estudantes já estão mais familiarizados com o mundo, sendo necessário “lapidar” os conhecimentos adquiridos: é a educação crítica. Para os estudantes do EJA (Educação de Jovens e Adultos) é a união do contexto dos estudantes do ensino fundamental e do ensino médio: o conhecimento é limitado e o mundo ainda é uma “caixinha de surpresas”[3]. Contudo, essa é uma realidade vivenciada na educação? Infelizmente não.

Para que o mundo seja descoberto e “lapidado” para os alunos, os professores têm que quebrar um velho tabu sobre sua formação: “a formação é uma só, teórica e prática ao mesmo tempo, assim como reflexiva, crítica e criadora de identidade” (PERRENOUD, 2002, p.23), ou seja, os professores têm a obrigação e o compromisso de fazer acontecer a relação entre o real (relações sociais) e o escrito (conteúdos).

“Precisamos manter aceso o desejo de nos aprimorarmos como profissionais e, por conseguinte, de estabelecermos estratégias que possibilitem o desenvolvimento de nossas competências. É dessa maneira que podemos suscitar em nossos alunos o desejo de aprender e o desenvolvimento de suas competências.” (ALLESANDRINI, 2002, p. 161)

 

Sendo assim, os professores e os demais profissionais da educação tem que “deletar” a idéia de que “se eu ganhar bem faço o meu trabalho bom, senão não trabalho”. Para desenvolver “uma educação efetiva depende da qualidade e do comprometimento do pessoal envolvido no dia a dia.” (GARDNER, 2000, p. 173), e a esse comprometimento dá-se no nome de vocação. A necessidade de se atualizar é muito grande na área educacional, mas não é motivo de deixar de ensinar, e muito menos de transpor a realidade, as relações sociais da comunidade, para a sala de aula, juntamente com os conteúdos específicos, pois esse é um dos caminhos (senão o melhor) para uma educação do século XXI.

 

3.     “Escola da Vida”: caminho para a educação do século XXI

Ao se propor que a vida seja uma escola, é necessário lembrar que o ato de ensinar vem junto com a evolução da espécie, ou simplesmente pela cultura. As relações sociais entre os homens se dá pelo fato de que o homem está inserido em uma sociedade e uma cultura, e esta “cultura é o resultado do trabalho, da relação dos homens com a natureza e dos homens entre si” (GOERGEN, 2005, p. 79), e é esse tipo de relação que o professor deve levar para a sala de aula, o que facilita o aprendizado e fortalece a formação cidadã do educando. “Assim, a educação é um processo sociocultural de individuação/socialização das novas gerações que são familiarizadas com um conjunto de tradições, normas e valores veiculadas pela cultura.” (GOERGEN, 2005, p. 80)

Mas antes de desenvolver esse assunto, é necessário lembrar qual a função da escola e da educação na sociedade. ALLESSANDRINI (2002) descreve um panorama da educação no Brasil, onde necessita-se romper com o modelo educacional tradicional, e focar em uma prática mais reflexiva e na qualificação profissional. Ou seja, a educação brasileira sofre com uma desestruturação organizacional, na qual não existe alguém para se responsabilizar por algo. PERRENOUD (2002) complementa dizendo que

“as finalidades da educação continuam sendo uma questão nacional. [...] os brasileiros é que definirão as finalidades da escola no Brasil e, conseqüentemente, formarão seus professores. A questão é saber se o farão de forma democrática ou se a educação continuará sendo [...] um instrumento de reprodução das desigualdades e de sujeição das massas ao pensamento dominante.” (PERRENOUD, 2002, p.13)

 

            Portanto, a educação de hoje e do amanhã será o desejo, a intenção, da sociedade: ou a educação forma cidadãos conscientes e críticos, ou forma “papagaios” que repetirão o que os outros falam. E mais uma vez, é função do professor e da escola fazer com que isso não aconteça. “O conhecimento não é um espelho das coisas ou do mundo externo” (MORIN, 2000, p.20), o conhecimento é construção e reconstrução do pensamento, sujeito ao erro e às ilusões (MORIN, 2000), o que fica mais fácil de reformular o processo.

            Reformular o processo de ensino/aprendizagem! Essa é a atitude que deve-se tomar a frente aos problemas da educação. E as “armas” para isso, além da formação do professor, é saber que a escola, mesmo sendo um ambiente onde os jovens passam a maior parte do tempo, “outras instâncias como família, meios de comunicação etc. [têm] sua parte de corresponsabilidade educativa e formativa” (GOERGEN, 2005, p. 82), ou seja, a escola é o complemento da educação familiar, onde, além da família, a sociedade é presente e cooperante com o sistema educativo, pois

“escola e sociedade devem estar intimamente relacionadas, mas não no sentido de que o educativo deva simplesmente colocar-se a serviço do sistema. A educação deve dar-se a partir da realidade sociocultural e econômica, pois é nela que os educandos vivem hoje e irão viver no futuro como profissionais.” (GOERGEN, 2005, p. 83)

 

            Muito aqui se falou em sociedade e no seu papel no processo educativo. Mas o que será que constitui a sociedade? MORIN (2000, p.54) explica que “as interações entre indivíduos produzem a sociedade, que testemunha o surgimento da cultura, e que retroage sobre os indivíduos pela cultura”, e indivíduo é aquele que agrega valores éticos e morais, da cultura, tem individualidade e interage entre as espécies, onde “o mundo torna-se cada vez mais um todo. Cada parte do mundo faz, mais e mais, parte do mundo e o mundo, como um todo, está cada vez mais presente em cada uma de suas partes” (MORIN, 2000, p.67). Traduzindo, o mundo é a sociedade e a sociedade é o indivíduo, e quem faz o indivíduo é a vida e a educação, visando o capital humano e  sociocultural. Portanto,

“compete a educação, então, conduzir as jovens gerações no sentido de sensibilizá-las para o problema da ética como o fundamento da vida humana na sua relação com a natureza, com os outros seres humanos e consigo mesmas.” (GOERGEN, 2005, p.80)

 

Assim, a escola é a sociedade, os valores, os indivíduos, a cultura, a família e a educação. Todos esses “ingredientes” da escola sofrem e sofreram com um boom da modernidade (o que caracteriza o século XXI). É “depois do grande boom do conhecimento, da informação, das habilidades técnicas [que] volta com toda a força a necessidade do formativo” (GOERGEN, 2005, p. 78), o que a escola não está preparada, bem como seus agentes (professores e alunos). Contudo, para o aluno sobreviver em meio desse boom, este precisa “aprender a reconhecer quais são, efetivamente, as questões fundamentais para o ser humano, para a vida e para a convivência” (GOERGEN, 2005, p. 78), e que deveria fazer esse papel de norteador/orientador, além da família, é o professor, sempre tendo como base os conhecimentos específicos e as relações sociais que o aluno está envolvido. É a “Escola da Vida”[4] sendo somada à “Escola dos conteúdos”. Por fim, o estabelecimento escolar acaba se tornando “lugar onde se constrói e se negocia a mudança.” (THUELER, 2002, p.96).

PERRENOUD (2000) propõe uma possível solução para a mudança da atual situação da escola, que se iguala aos objetivos desse trabalho: professores e gestores devem saber propor e gerir situações de aprendizagem, visando um ambiente escolar diferenciado, onde o lado social dos alunos, ou seja, as relações sociais da comunidade, estejam presentes em sala de aula, levando em consideração as características de cada aluno, propondo, assim, um ritmo e uma motivação aos alunos facilitando o encurtamento da distância entre o conhecimento e o aluno, o que possibilita o desenvolvimento de “inteligências”.

O desenvolvimento de uma “inteligência” está ligado de forma direta com o lado sociocultural do indivíduo. A escola é o ambiente onde todas as “inteligências” podem se manifestar, sendo o palco dessas manifestações. (GARDNER, 2000), que serão de grande valia no mundo competitivo, capitalista e trabalhista.

Discernir o certo do errado, e errar para aprender, é a própria vida que ensina, mas é função da escola fortalecer as bases éticas e morais, facilitando, assim, a tomada de decisão de acordo com os moldes que a sociedade impõe, ou seja, em casa o indivíduo aprende o que pode e não pode, na escola ele aprende o porque das coisas. (THUELER, 2002)  A educação, mesmo na modernidade, tem como base a família, a vida, e é função da escola manter essa base para a que o aluno consiga sobreviver no boom  da modernidade. Portanto, “a educação deve favorecer a aptidão natural da mente em formular e resolver problemas essenciais e, de forma correlata, estimular o uso total da inteligência geral” (MORIN, 2000, p.39).

Sendo assim, a educação do futuro deve promover “a mudança de mentalidade, o nascer de uma nova consciência precisam ser estimulados através do processo educativo”[5]. (GOERGEN, 2005, p.9). A união entre educação e formação da vida pode ser um dos caminhos para uma educação do século XXI voltada para a formação cidadã da humanidade, tendo a participação da família e da sociedade dentro da escola. Após várias reflexões sobre escola, sociedade e educação, pode-se dizer que a educação do século XXI, ou a educação na era da modernidade, tem que ser iniciada na formação dos professores e complementada na sala de aula, onde deve a interação dos conteúdos e relações sociais, pois “a escola como instituição que se dispõe ajudar os jovens na tarefa de se constituírem como seres humanos não pode ser função esgotada na informação” (GOERGEN, 2005, p. 85), mas sim somada à VIDA.

 

4.     Conclusão

“Podemos imaginar que em 2100 não haverá mais escola porque a humanidade terá finalmente conseguido destruir o planeta, ou estará sob o controle de extraterrestres que dispõem de recursos mais sofisticados para dominar atos e espíritos.” (PERRENOUD, 2002, p.11). Será que esse é o futuro? Qual é a escola futuro? Terá computadores? Terá alguém para educar e formar indivíduos para a vida?

A resposta da última pergunta é simples: SIM. Não há como ter aprendizado e educação sem a relação entre pessoas, sem a relação social com a diferença. Atualmente, os professores estão com um dilema em suas mãos: “reinventar sua escola enquanto local de trabalho e reinventar a si próprios enquanto pessoas e membros de uma profissão.” (THUELER, 2002, p.89). A solução para esse dilema está em introduzir novos objetivos de aprendizagem e de novas maneiras de ensinar, e esquecer das rígidas lições e dos conteúdos decorados. (THUELER, 2002).

“Somos professores, nossa proposta é participar de forma construtiva da educação de nossos alunos. Porém, temos como tarefa maior, talvez como desafio, não reproduzir o que vivenciamos quando alunos, por vezes até os dias de hoje, pois somos eternos estudantes dentro da profissão que escolhemos como caminho da vida. Afinal, trabalhamos com o material mais precioso: o ser humano.” (ALLESSANDRINI, 2002, p.163 – 164)

 

ALLESSANDRINI (2002) expõe, de maneira clara e objetiva, o que é o professor e o que ele deve fazer: o professor lida com o ser humano, e é por isso que ele deve trazer a experiência de vida para a sala de aula. Resumindo, é saber promover o desenvolvimento de uma consciência crítica e reflexiva, formando um cidadão que veja um mundo diferente de todos, pois foi educado com conteúdos específicos norteados pelas experiências de vida.

Vida! Palavra que transmite vários sentimentos e sentidos: a dor de perder uma vida, o querer viver a vida. Mas aqui, a vida tem o sentido de escola, de aprendizado, de conhecimento. Contudo, toda essa união pode ser um pouco de utopia, pois “nossa educação nos ensinou a separar, compartimentar, isolar e, não, a unir os conhecimentos, o conjunto deles constitui um quebra-cabeças ininteligível.” (MORIN, 2000, p.42), e é dever dos profissionais da educação acabarem com isso, pois a educação do futuro, na era da modernidade, tem que agregar valores, somar experiências e compartilhar aprendizagens e conhecimentos. “O conhecimento do conhecimento, que comporta a integração do conhecedor em seu conhecimento, deve ser, para a educação, um princípio e uma necessidade permanentes.” (MORIN, 2000, p.31)

A educação do futuro está em compreender a unidade humana e sua diversidade, pois “compreender o humano é compreender sua unidade na diversidade, sua diversidade na unidade.” (MORIN, 2000, p.55), ou seja, a educação do futuro está em compreender as relações sociais e colocá-las em sala de aula como complemento do conhecimento específico.

A formação do professor na “sociopedagogia” é mais importante do que cursos de aperfeiçoamento e de greves e paralisações. Na “sociopedagogia” o capital humano e social vale mais que o capital financeiro (DOLABELA, 2003), ou seja, “a atuação do professor deve acontecer no sentido da construção de uma nova consciência, consolidando uma cidadania ética e solidária.” (ALLESSANDRINI, 2002, p.167)

“O professor-educador deve assumir a responsabilidade ética de ser um agente de mudanças em seu ambiente de trabalho, transformando-se em um multiplicador de novas idéias. Entendemos a educação como a possibilidade de oferecer ao outro qualidade e condições de desenvolvimento.” (ALLESSANDRINI, 2002, p.170)

 

Portanto, a educação do futuro está além de professores e conteúdos decorados, de paralisações e greves por melhores salários sem fazer por merecer, de desculpas sem lógica e de alunos desmotivados e cansados de uma escola sem algo a mais para oferecer.

A educação do século XXI está na valorização da cultura, da condição humana, das relações sociais em sala de aula, de conteúdos específicos, na união dos níveis organizacionais da escola, na diversidade, na cooperação aluno/professor/escola/sociedade e no profissionalismo.

Sendo assim, a educação do século XXI está nas mãos da humanidade, e foi por essas mãos que “a humanidade deixou de constituir uma nação somente ideal, tornou-se uma comunidade de destino, e somente a consciência desta comunidade pode conduzi-la a uma comunidade de vida.” (MORIN, 2000, p.114) e porque não, é hora de professores, gestores e governo acreditarem na educação e fazerem dela a “arma” contra a ignorância, a estupidez, a violência, a corrupção, para só assim a humanidade caminhar para a comunidade de vida, onde a vida seja mais do que um ato (o ato de viver), seja, portanto, a educação do futuro, a EDUCAÇÃO DO SÉCULO XXI.

 

 

5.     Referências Bibliográficas

ALLESSANDRINI, Cristina Dias. O Desenvolvimento de Competências e a Participação Pessoal na construção de um Novo Modelo Educacional. In: PERRENOUD, Philippe; et al. As competências para ensinar no século XXI – A formação dos professores e o desafio da avaliação. Porto Alegre: Artmed Editora, 2002.

 

COMENIUS (1592 – 1670), tradução Ivone Castilho Benedetti. Didática Magna. São Paulo: Martins Fontes, 1997

 

COTRIM, Gilberto. História Global – Brasil e Geral. 8ª ed. Volume único. São Paulo: Editora Saraiva, 2005.

 

DOLABELA, Fernando. Pedagogia Empreendedora. São Paulo: Editora de Cultura, 2003.

 

GARDENER, Howard. Inteligências múltiplas: a teoria na prática. Porto Alegre: ArtMed editora, 2000.

 

GOERGEN, Pedro. Pós- modernidade, Ética e Educação. 2ª ed. revista. Coleção Polêmicas do nosso Tempo. Campinas, SP: Editora Autores Associados LTDA, 2005.

 

MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à Educação do Futuro. 2º ed. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2000

 

PERRENOUD, Philippe. A formação dos professores no século XXI. In: PERRENOUD, Philippe; et al. As competências para ensinar no século XXI – A formação dos professores e o desafio da avaliação. Porto Alegre: Artmed Editora, 2002.

 

PERRENOUD, Philippe. Dez novas competências para ensinar: convite à viagem. Porto Alegre: Artmed Editora, 2000

 

THUELER, Monica Gather. O Desenvolvimento Profissional dos Professores: novos paradigmas, novas práticas. In: PERRENOUD, Philippe; et al. As competências para ensinar no século XXI – A formação dos professores e o desafio da avaliação. Porto Alegre: Artmed Editora, 2002.



[1] É claro que não pretende-se dizer que a mídia é a solução para tudo, mas é um meio mais rápido para a atualização dos professores, porque os alunos assistem TV e pesquisam na internet e vem preparado para a sala de aula e o professor não. E é por esse motivo que a mídia é uma maneira de “modernizar” a informação.

[2] A pedagogia crítica/reflexiva baseia-se em expor o conteúdo ao aluno e fazer com que ele possa, não apenas receber o conteúdo, mas que ele possa criar uma visão pessoal do conteúdo e de como isso pode ser aplicado no cotidiano (reflexão).

[3] O termo “caixinha de surpresas” fora usado com o intuito de dizer que mesmo com a vivência dos alunos e do que foi aprendido nos anos sempre haverá novidades e curiosidades que os professores deveriam ensinar.

[4] A “Escola da Vida” é a própria vivência das pessoa: os erros e acertos, as ilusões, os medos, as expectativas, os valores éticos e morais, a família, ou seja, é a interação pessoa/sociedade.

[5] O que GOERGEN (2005) propõe nesse trecho pode ser considerado como uma questão norteadora e/ou orientadora de uma mudança no processo educacional e da formação dos professores e da “escola da vida”.

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